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Rev Cuid 2014; 5(1): 583-4

INVESTIGAÇÃO EM ENFERMAGEM: UM PERCURSO IBERO-AMERICANO

NURSING RESEARCH: AN IBEROAMERICAN ROUTE

INVESTIGACIÓN EN ENFERMERÍA: UNA RUTA IBEROAMERICANA
Paulino Sousa1

1Enfermeiro, MNSc, PhDNSc, Professor Coordenador da Escola Superior de Enfermagem do Porto - Portugal, Membro do CINTESIS (Center for Research in Technology and Information System) da Universidade do Porto - Porto Portugal. E-mail: paulino@esenf.pt

Cómo citar este artículo: Sousa P. Investigação em enfermagem: um percurso ibero-americano. Rev Cuid. 2014; 5(1): 583-4.

Assistimos com frequência a uma elevada variabilidade na tomada de decisões dos profissionais de saúde, dentro de um mesmo sistema de saúde e até de uma mesma unidade de saúde. Para prevenir estes e outros desvios, os processos de garantia e melhoria da qualidade reportam, entre outros aspetos, à necessidade de basear a prática em evidência. Ou seja, melhorar a qualidade dos cuidados e otimizar os resultados em saúde implica desenvolver uma prática sustentada na incorporação da melhor evidência científica disponível, conjugada com a experiência, a opinião de peritos e os valores e preferências dos utentes, no contexto dos recursos disponíveis. Para tal, a enfermagem, como qualquer outra área disciplinar, necessita de produção e de renovação do seu corpo de conhecimentos, o que apenas poderá ser assegurado pela investigação.

Em Portugal, a Ordem dos Enfermeiros (1), tendo por base os contributos das Unidades de Investigação em Enfermagem, as estratégias e orientações do Plano Nacional de Saúde e os Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem, definiu quatro eixos prioritários de investigação: a) Adequação dos cuidados de enfermagem gerais e especializados às necessidades do cidadão (estudos que promovam a clarificação e explicitação das necessidades das populações em cuidados de enfermagem gerais e especializados e os benefícios resultantes de respostas concretas, assentes nos processos de conceção dos enfermeiros); b) Educação para a saúde na aprendizagem de capacidades (estudos que promovam programas de intervenção em áreas consideradas prioritárias, nomeadamente em aspetos de saúde das populações relacionados com a dependência para o autocuidado e a necessidade de cuidados continuados, estilos de vida, qualidade de vida e ambiente); c) Estratégias inovadoras de gestão / liderança (estudos que abordem estratégias que promovam e facilitem a qualidade dos cuidados); e (d) Formação em enfermagem no desenvolvimento de competências (estudos com particular incidência na área do desenvolvimento curricular e estratégias de supervisão clínica).

É evidente que se torna fundamental identificar os desafios que se colocam à Investigação em Enfermagem, em cada país e a nível mundial, para que seja possível identificar estratégias de ação locais e formas de cooperação internacional.

A garantia e melhoria da qualidade dos cuidados em saúde é um objetivo central de todos os sistemas de saúde, que só é possível alcançar através de uma ação integrada e permanente de todos os intervenientes no processo de cuidados. Abordar as questões da qualidade dos cuidados implica ter em consideração a integração e aplicação dos melhores recursos disponíveis, para obter os melhores índices de saúde possíveis - com o menor custo e com os menores riscos e efeitos adversos. Estas são questões equacionadas em todo mundo, o que implica uma atenção global para compreender e analisar as grandes transformações que ocorrem a nível social, cultural e económico, com implicações na saúde das populações.

Duran-Parra (2), no seu editorial sobre o futuro da investigação para os profissionais de enfermagem, salienta que apesar de existirem disparidades no desenvolvimento da investigação em diferentes países do mundo e, em particular na América Latina, é imprescindível que cada país produza conhecimento para promover uma prática sustentada na evidência científica e nos resultados dos estudos desenvolvidos. Partilho, também, da opinião da autora, de que as escolas de enfermagem têm um papel fundamental na ênfase que colocam na Investigação em Enfermagem, em todos os níveis de formação, criando uma “massa crítica” imprescindível para a realização sustentada de investigação de qualidade.

É evidente, que embora a região ibero-americana seja marcada por uma diversidade cultural, linguística, política, económica e social, torna-se necessário enveredar esforços para uma verdadeira “aliança ibero-americana” que possibilite a partilha de saberes e de práticas. Temos assistido, nas últimas décadas, a diversas iniciativas internacionais, cujo desenvolvimento de projetos conjuntos têm contribuído para eliminar as distâncias geográficas e, eventualmente, os diferentes níveis de desenvolvimento, ajudando a construir uma sociedade do conhecimento em enfermagem e saúde.

As oportunidades de interação entre investigadores e participantes interessados no ensino, pesquisa e extensão à comunidade, envolvendo diferentes desafios que se colocam em enfermagem, têm sido cada vez mais frequentes. Neste contexto, salientámos a existência de revistas científicas de divulgação de estudos ibero-americanos, a realização de diferentes eventos científicos (Conferências, Simpósios) e o progressivo envolvimento de organizações científicas (Associações, Sociedades). Estes são espaços ideais para trocas de experiências e aprofundar o conhecimento específico, fundamentais para reflexões sobre como influenciar as políticas de saúde e de avaliação do seu impacto na qualidade de vida das populações.

Todas estas estratégias de comunicação entre investigadores poderão facilitar a constituição de protocolos de cooperação e de redes para partilhar conhecimento científico no espaço ibero-americano. O desenvolvimento de uma comunidade científica em Enfermagem, capaz de produzir conhecimento científico válido e útil, é uma condição necessária para uma melhoria contínua das práticas dos enfermeiros e afirmação do seu discurso científico no plano interdisciplinar.

No estudo sobre indicadores da produção científica da enfermagem ibero-americana, Marziale-Palucci (3) salienta que “… devido ao pequeno número de periódicos da região, indexados nas bases ISI e Scopus, a visibilidade e o impacto do conhecimento produzido, apesar de se encontrar em processo de expansão, quando comparado aos últimos dez anos, não representam o real impacto da produção da Enfermagem ibero-americana, agregado à melhoria da qualidade de vida das pessoas e nas tecnologias incorporadas no cuidado em saúde e em Enfermagem“.

Assim sendo, torna-se necessário rentabilizar todos os momentos que permitam aproximar discussões sobre temas e enfoques culturalmente diferenciados, que integrem investigadores e grupos de investigação, para discutir dificuldades enfrentadas na produção do conhecimento.

A abordagem da investigação num contexto ibero-americano passará pela análise do seu contributo para o desenvolvimento global e pela partilha de experiências sobre aprendizagem, investigação e inovação. É nesta dimensão que a investigação em enfermagem ibero-americana poderá colocar ao serviço da população uma política de geração de conhecimento, que se pretende que seja transformadora da prática dos cuidados de enfermagem - cada vez mais sustentada na incorporação da melhor evidência científica disponível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Ordem dos Enfermeiros. Investigação em enfermagem (tomada de posição). 2006. Disponível em: http://www.ordemenfermeiros.pt/tomadasposicao/Documents/TomadaPosicao_26Abr2006.pdf [acesso em: 17 fev 2014].
  2. Duran-Parra M. El futuro de la producción investigativa en los profesionales de enfermería [Editorial]. Rev Cuid 2010; 1(1):6-7.
  3. Marziale-Palucci MH. Indicadores da produção científica ibero-americana [Editorial]. Rev. Latino-Am. Enfermagem 2011; 19(4): [02 telas].

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